Sinfonia em amarelo: nespereiras e grevílias

Desde pequeno que as nódoas de nêspera me intrigam. Primeiro, porque não queria acreditar nelas quando, ainda criança, sentado na árvore as comia de forma abundante, mais tarde porque quis perceber o mecanismo pelo qual estas manchariam de forma tão drástica a roupa que esta teria de ir para o lixo. Não tenho uma resposta definitiva, mas apenas algumas pistas baseadas na literatura que consultei. No caso das nêsperas, os polifenóis são oxidados rapidamente pela enzima polifenoloxidase a quinonas e polimerizam, originando o típico aspecto castanho dos frutos apanhados há algum tempo. Provavelmente, no caso das nêsperas, estes polímeros formam ligações muito fortes com as fibras do algodão.

Vem isto a propósito da explosão de amarelo característico que temos em Coimbra com as nespereiras e as grevílias. Só nesta altura se nota como há tantas aqui. E faz bastante pena todas aquelas nêsperas a cair no chão e a apodrecer sem que ninguém as coma.

É certo que as árvores de fruto nas cidades estão muito sujeitas à poluição automóvel e muitas árvores têm uma tendência natural para acumularem metais pesados. No entanto, tendo a gasolina com chumbo sido banida há muito, restam os metais que se encontravam no solo ou já na árvore e aqueles que navegam incorporados na fuligem (agora rebaptizada de nanopartículas de carbono). Com os modernos métodos analíticos da química podemos detectar quantidades ínfimas destes poluentes, mas as nêsperas deverão estar hoje muito menos contaminadas com estes metais do que há décadas atrás. Além disso, quase ninguém usa pesticidas nos jardins, logo desse problema não devem sofrer.

Como vou apresentar uma comunicaçãosobre os Passeios Químicos no encontro SciCom 2014 na Universidade de Porto estive, como não poderia deixar de ser, a estudar a questão semântica das nêsperas e dos magnórios.

A árvore que no centro e sul do país chamamos nespereira (Eriobothrya japonica) é originária da China, onde as suas folhas são usadas em medicina tradicional. O seu fruto, a nêspera, é chamado no norte de Portugal magnório, o que origina alguma confusão, até porque existe, em algumas regiões do norte, um outro fruto a que chamam nêspera. Em particular, na região de Guimarães, existe uma árvore, cada vez mais rara, a nespereira europeia (Mespilus germanica, na imagem ao lado, não conheço nenhum exemplar em Coimbra) cujo fruto é também chamado nêspera, o qual só é comido quando está muito maduro ou quase podre. Este fruto teve o seu papel na alimentação há séculos atrás,  aparecendo em algumas peças de Shakespeare (procure-se medlar e note-se as alusões ao apodrecimento e... ao sexo feminino), sendo agora muito menos consumido.

Os caroços das nêsperas entre muitas outras substâncias, amigdalina, que já foi uma suposta cura milagrosa para o cancro, hoje me dia completamente desacreditada. Já as suas folhas contêm ácidos triterpénicos como o ácido ursolínico, entre outras substâncias, como sejam glicosídeos e flavonóides, que têm acção biológica. Já as nêsperas têm cerca de 90% de água, 5 a 9% de açúcares e cerca de um por cento de ácidos orgânicos, sendo o ácido málico dominante. A sua cor amarela é devida a dois tipos de carotenóides particulares.

Quanto às grevílias, têm também histórias químicas para contar. Nas folhas desta árvore, existem compostos que fazem guerra química eficaz às plantas que as rodeiam, sendo por isso estudados para o desenvolvimento de novos pesticidas. Dependendo da quantidade disponível destes compostos nas folhas, forma de os extrair e necessidade, ou não, de modificações químicas para melhorar a sua aplicação ou aumentar a sua potência, um novo pesticida, obtido partir de um composto lead não poderá ser desenvolvido sem a participação da química em várias fases, podendo inclusive esse lead servir apenas de inspiração a compostos sintéticos ou artificiais não obtidos da planta. 

[versão preliminar de 28 de Maio de 2014]

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