Na praia à beira mar

Texto com passeios químicos que apareceu no Diário de Coimbra de 5 de Julho de 2011. Trata-se da adaptação para três mil caracteres (com a introdução de vários assuntos novos) de um outro apresentado aqui no verão passado.

Enquanto, de novo, passeamos na praia admiremos a química que podemos encontrar à beira mar. A areia dourada é essencialmente sílica e a cor amarelada é devido à presença de óxidos de ferro. Já a cor mais escura da areia molhada e o branco da espuma das ondas resultam da difusão da luz. No caso da espuma, a difusão de todos os comprimentos de onda origina a cor branca como acontece com o leite e outros materiais coloidais. Na areia molhada, como há água em vez de ar entre os grãos de areia, a luz é difundida preferencialmente no sentido da sua incidência, originando uma maior atenuação da luz. E a areia grossa parece mais escura pois a luz tem maior probabilidade de ser absorvida durante a sua difusão.

A areia molhada poder ser moldada em castelos é uma manifestação das ligações de hidrogénio: as forças de atracção entre a sílica e as moléculas de água mantêm os grãos de areia unidos. Por esta e outras razões, a água é um líquido especial e fundamental para a vida que, com o calor intenso, é necessário beber em maior quantidade, especialmente as crianças e os idosos. A água do mar tem, para além de cloreto de sódio, vários outros sais dissolvidos que a tornam mais densa, sendo por isso mais fácil flutuar nela. Mas como tem uma percentagem de sais de cerca de 3.5%, enquanto os nossos fluidos corporais têm uma percentagem de cerca de 0.9%, beber água do mar aumentaria a concentração de sais no sangue, causando grandes problemas.

Tenhamos cuidado com o sol. A absorção da radiação ultravioleta que consegue atravessar a camada de ozono, ao mesmo tempo que origina o bronzeamento e a formação de vitamina D, provoca queimaduras solares e aumenta a probabilidade de cancro de pele. Os protectores solares tanto podem fornecer protecção física, reflectindo e difundindo a radiação ultravioleta, como protecção química, absorvendo a radiação e libertando de forma rápida a energia absorvida por relaxação vibracional. E se usarmos óculos escuros, é importante saber que o vidro filtra naturalmente a radiação ultravioleta, mas nem todos os plásticos o fazem. As lentes de policarbonato são opacas à radiação ultravioleta, mas em imitações podem ter sido usados materiais menos seguros.

Ao apanharmos conchas e búzios lembremos que resultaram da fixação do dióxido de carbono pelos animais marinhos na forma de carbonato de cálcio e que, por processos geológicos complexos e demorados, estão na origem das rochas calcárias. E notemos a corrosão dos objectos de ferro junto ao mar. Nas regiões marítimas formam-se aerossóis que contêm sais hidratados, em particular de cloretos. Estes, assim como a humidade elevada, ajudam a solubilizar e remover os iões de ferro que resultam da oxidação deste metal, acelerando muito o processo de corrosão. Os aerossóis ajudam também a difundir o característico cheiro a mar. Ao que parece, este é originado por uma complexa mistura de compostos de enxofre provenientes da actividade de microorganismos, vários tipos de compostos produzidos pelas algas e animais marinhos, alguns deles atractivos sexuais, assim como compostos de cloro, bromo e iodo.

Talvez ainda haja tempo para um gelado. E também neste há química.

2 comentários:

João Pedro Calafate disse...

Tive conhecimento deste espaço, de divulgação de ciência, há poucos dias. Os meus parabéns ao Sérgio Rodrigues pelo interessante e educativo texto e pelo excelente blog que dinamiza. Já o estou a divulgar e com ele aprenderei.
Melhores cumprimentos do João Pedro Calafate!
(www.cienciapatodos.webnode.pt)

Sérgio Rodrigues disse...

Obrigado! Tenho tido pouca disponibilidade para incluir textos novos e mesmo para rever alguns dos mais antigos, e, de facto, acabou por ser umas respostas que dei no seu óptimo projecto Ciência para Todos que me incentivou a dar um maior avanço a alguns textos que estavam ainda em preparação e começar a arquivar outros que entretanto, a convite do António Piedade, fui publicando nos jornais regionais.

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